O debate sobre remuneração vai muito além do salário no fim do mês. Passa pelo clima organizacional, pelos bônus, pelos benefícios – e, principalmente, pela forma como tudo isso se conecta ao futuro do trabalho do colaborador.
É com esse pano de fundo que Felipe Cruz, Gerente de Remuneração da Carreira Muller, traz reflexões importantes ao encarar duas “polêmicas” que costumam gerar desconforto nas empresas.
- O papel dos bônus em um ano difícil;
- E por que o pacote de remuneração se parece tanto com um combo de fast food.
Neste conteúdo, você confere os principais pontos dessa conversa que permeou o 151º episódio do ConsultAqui, e entende por que ela diz muito sobre os desafios atuais das organizações.
Debatendo duas “polêmicas” da caixa-preta de remuneração
1) “Bônus bom não apaga ano ruim”
A ideia de que um bom bônus pode compensar qualquer desgaste ao longo do ano já não se sustenta como antes. Cada vez mais, a decisão de permanecer ou sair de uma empresa está ligada à experiência vivida ao longo do tempo – e não apenas ao valor financeiro recebido.
E essa percepção de valor do bônus depende muito do momento de vida do colaborador e do perfil da empresa. É como se o profissional tivesse que responder à seguinte pergunta: você abriria mão do dinheiro por um momento com sua família?
A resposta vai mudar conforme o contexto individual. Se alguém responder que abriria mão do dinheiro, o bônus perde força. Se responder que não, o bônus até pode ajudar. “Nesse caso, um bônus bom pode até apagar um ano ruim. Mas, na prática, vejo cada vez menos pessoas aceitando que um bônus seja suficiente para compensar um ano difícil”, diz Felipe.
O que antes era tolerado em nome do resultado hoje encontra mais resistência, especialmente entre profissionais mais jovens, que já não aceitam ambientes tóxicos como parte do pacote.
Nesse contexto, ganha protagonismo o chamado salário emocional. Clima organizacional, apoio da liderança, senso de propósito e desenvolvimento pesam — e MUITO! — na decisão de ficar ou sair.
“Se eu tenho um gestor ruim, que me trata mal e ainda ganho pouco, eu não vou querer ficar na empresa. Já se tenho um gestor que me inspira, motiva e me desenvolve, eu até aceito ganhar menos, porque vejo valor nisso”, acredita Felipe.
E aí, vale a dica: quanto pior for o salário emocional e mais a empresa negligenciar essas questões, mais caro será o bônus necessário para pagar um ano ruim. E chega uma hora em que a conta não fecha para a empresa também.
2) “Pacote de remuneração é igual combo de fast food”
A segunda provocação vem em forma de metáfora — e resume bem a realidade de muitos modelos de remuneração. Os pacotes de benefícios ainda são pouco flexíveis e raramente consideram que pessoas têm necessidades, prioridades e objetivos diferentes ao longo da vida.
“Você só queria o lanche, mas vai ter que levar a batata e o refri”, brinca Felipe.
O problema NÃO está apenas no valor, mas na falta de escolha. Benefícios são oferecidos de forma padronizada, mesmo sabendo que o que faz sentido para quem está começando a carreira dificilmente será o mesmo para quem já tem anos de empresa.
Felipe aponta que esse é um dos grandes desafios atuais: criar modelos que evoluam junto com o colaborador. No Brasil, essa discussão esbarra fortemente nas restrições legais, que limitam a flexibilidade entre remuneração fixa, variável e incentivos de longo prazo (ILP).
Ainda assim, o mercado começa a dar sinais de mudança. Modelos PJ, benefícios flexíveis e referências internacionais mostram que é possível avançar. Inclusive, muitas vezes sem aumentar custos, apenas realocando melhor os recursos.
“O desafio não é gastar mais, mas investir onde realmente gera valor para o colaborador”, finaliza Felipe.
Quem conseguir transformar essa lógica em um case consistente tende a ganhar não só em atração e retenção, mas também em engajamento e resultado.
Para continuar a conversa
Abrir a caixa-preta da remuneração é essencial para entender como clima, bônus e benefícios influenciam o futuro do trabalho e a relação das pessoas com as organizações.
Se você quer se aprofundar no tema, assista ao 151º episódio do ConsultAqui. E aproveite para participar da conversa: como a sua empresa encara esses desafios hoje?




