Nos últimos anos, o termo “salário digno” deixou (ou deveria ter deixado) de ser apenas uma ideia utópica e passou a ocupar espaço nas discussões estratégicas das empresas. É uma prática cada vez mais visada por ser capaz de fortalecer a sustentabilidade dos negócios e valorizar o principal ativo das empresas: as pessoas.
Mas, afinal, o que significa salário digno? É um sinônimo de salário mínimo? Um valor acima da média de mercado?
Neste artigo, Felipe Cruz, Gerente de Remuneração da Carreira Muller, explica a diferença entre salário mínimo e salário digno, esclarece por que benefícios não podem substituí-lo e destaca o papel do RH na implementação dessa agenda.
O que é salário digno? É o mesmo que salário mínimo?
Não. O salário digno surgiu justamente como uma alternativa ao salário mínimo.
“Apesar de o salário mínimo ser um piso legal, ele não cobre as necessidades básicas de um indivíduo, muito menos de uma família”, destaca Felipe. “Quanto custa um plano de saúde, alimentação, moradia e transporte? Hoje, sabemos que o mínimo não cobre tudo isso. Então o salário digno nasceu para preencher essa lacuna.
O salário digno pode ser definido por diferentes fontes e metodologias. Instituições como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Living Wage Foundation (no Reino Unido), e, no Brasil, o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) fornecem dados fundamentais para essa análise.
Eles trabalham para entender o custo de vida e chegar a um valor que realmente faça sentido. Além disso, muitas empresas optam por calcular internamente o salário digno, com o apoio de consultorias especializadas – como a Carreira Muller.
De acordo com o DIEESE, um salário digno para uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 6.900,00 – um valor bem acima do praticado atualmente.
“Se uma simples compra de mercado já consome quase todo o salário de um trabalhador, é sinal de que precisamos repensar a forma de remunerar. O salário digno nasce justamente para isso: garantir qualidade de vida ao empregado e ir além da mera obrigação legal”, reforça Felipe.
Benefícios contam como salário digno?
Não. Benefícios são importantes, mas não substituem o conceito de salário digno.
“Eles devem complementar, nunca justificar. Não dá para afirmar que a empresa paga um salário digno apenas porque a compensação total, somada aos benefícios, parece competitiva. A remuneração fixa precisa, por si só, cobrir as necessidades mínimas do colaborador. Os benefícios vêm como um extra, não como um substituto”, esclarece Felipe.
E como saber se um salário é, de fato, digno?
Bom, se uma empresa implementar o salário digno apenas como uma estratégia de marketing para melhorar sua imagem no mercado, corre o risco de focar exclusivamente nos custos – e isso pode comprometer ou até mesmo inviabilizar o projeto.
“O ideal é que essa iniciativa esteja alinhada às práticas de ESG e seja incorporada à cultura organizacional, com a compreensão de que oferecer uma remuneração que garanta qualidade de vida aos colaboradores não é opcional, mas sim estratégico”, ressalta Felipe.
Isso significa avaliar:
- O custo de vida real da localidade onde o trabalhador mora, incluindo alimentação, moradia e saúde;
- A mediana de mercado, sem perder de vista que ela não garante, sozinha, uma vida digna;
- E o apoio de consultorias especializadas, que ajudam a estruturar um estudo sólido sobre remuneração.
Qual o papel do RH nessa agenda?
O RH é o grande elo entre as necessidades das pessoas e a saúde financeira da empresa. “O RH precisa mostrar para a liderança que salário digno não é apenas custo, mas um investimento estratégico”, ressalta Felipe.
Entre os impactos positivos, podemos citar:
- Aumento do engajamento;
- Redução da rotatividade;
- Fortalecimento da marca empregadora;
- Maior produtividade.
Por mais que o debate sobre ESG (Environmental, Social and Governance) esteja enfrentando resistência em alguns setores, Felipe acredita que esse é o momento ideal para se diferenciar no mercado. “As empresas que enxergarem o salário digno como propósito – e não apenas como tendência – sairão na frente, porque gente bem paga é gente mais motivada e comprometida”, conclui Felipe.
Se a sua empresa ainda não começou essa discussão, talvez seja hora de colocar esse tema na mesa. É como falamos: pagar de forma justa é investimento.
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