Você aceitaria receber parte do seu salário em Bitcoin?
A pergunta pode soar futurista, mas já existem empresas que oferecem essa possibilidade — seja como premiação ou até como parte fixa da remuneração.
E, se estamos falando de remuneração, o assunto não poderia ficar de fora da nossa agenda. No 134º episódio do ConsultAqui, conversamos com Leandro Barbarini, Consultor de Remuneração da Carreira Muller, que explicou o que já está acontecendo no Brasil e no mundo. Neste conteúdo, reunimos os principais pontos:
- O que a legislação permite (e o que ainda não);
- Quais públicos têm aderido a esse modelo;
- Como avaliar riscos e oportunidades para sua empresa.
Mesmo que você prefira o tradicional depósito em reais, entender esse movimento pode impactar sua estratégia de remuneração.
O que é o Bitcoin e como funciona?
De forma objetiva, o Bitcoin é uma criptomoeda descentralizada, um ativo digital que existe apenas no ambiente virtual. Diferentemente do real, não pode ser sacado em um banco: ele é criptografado e protegido por uma tecnologia que garante a integridade das transações.
“Ao contrário do real, que é controlado pelo Banco Central, o Bitcoin opera em uma rede descentralizada, composta por milhares de computadores ao redor do mundo. As decisões não são tomadas por uma única organização, mas por consenso entre os usuários”, explica Leandro.
Hoje, o Bitcoin está avaliado em mais de R$ 600 mil. Ou seja, quem possui apenas dois já é considerado milionário. Mas nem sempre foi assim – a moeda já chegou a valer apenas 1 dólar. Só que mais recentemente vem atingindo recordes históricos.
Segundo Leandro, dois fatores explicam essa valorização: a aceitação global como ativo institucional e a alta divisibilidade da moeda.
“Empresas e governos começaram a ver a moeda como uma reserva estratégica. Nos Estados Unidos, por exemplo, já há planos de aposentadoria que incluem Bitcoin. Não estamos falando só de pessoas físicas, mas de bilhões de dólares sendo injetados por governos e empresas”, ressalta.
É possível remunerar em Bitcoin no Brasil?
Sim, mas com restrições. A divisibilidade é a chave para entender essa viabilidade.
O Bitcoin é limitado a 21 milhões de unidades, o que o torna escasso. Porém, pode ser dividido em até oito casas decimais, permitindo transações pequenas. “Se no real temos os centavos, no Bitcoin temos os satoshis, que tornam possível pagar até frações muito pequenas”, explica Leandro.
No mundo, já existem exemplos de remuneração em Bitcoin: jogadores da NFL e da NBA e até o prefeito de Miami recebem parte de seus salários assim. No Brasil, tramita um projeto de lei que permitiria pagar até 50% do salário em criptomoedas.
Na prática, porém, a CLT (artigo 463) não permite pagar salário em outra moeda que não seja de curso legal. O que abre espaço é a premiação — algo excepcional e não recorrente — ou contratos com profissionais PJ. “Particularmente, não acredito que isso vá avançar neste momento de maturidade do mercado brasileiro, mas no futuro pode se tornar realidade”, diz Leandro.
Existem outras criptomoedas?
Embora o Bitcoin seja o mais famoso, há centenas de criptomoedas no mercado. Algumas acompanham o valor de ativos reais, como o dólar, e são chamadas de stablecoins. Outras, como as memecoins, são altamente especulativas.
“O Bitcoin hoje vale mais de R$ 600 mil, mas outras criptos dificilmente alcançarão valores próximos em curto prazo. As stablecoins podem trazer mais segurança, enquanto as memecoins são de alto risco, pois tendem a explodir e depois cair”, explica Leandro.
Quais os riscos e cuidados necessários?
A maior preocupação é a volatilidade: a moeda pode se valorizar ou perder grande parte do valor em apenas um dia. Isso exige cautela tanto de empresas quanto de colaboradores.
Não basta querer receber e pagar em Bitcoin. É preciso saber o que é, conhecer primeiro e avaliar se faz sentido para o público da sua empresa.
Empresas de tecnologia e profissionais da Geração Z tendem a ser mais receptivos. “Profissionais de TI, principalmente desenvolvedores, já têm familiaridade com o Bitcoin. E a Geração Z, mais conectada à tecnologia, pode ver esse formato de pagamento com bons olhos”, afirma Leandro.
Outro ponto essencial é a documentação. A transação precisa indicar quanto o valor corresponde em reais no momento do pagamento, para efeitos legais e tributários. “É fundamental formalizar acordos, registrar em reais o valor recebido e deixar claro que o funcionário está de acordo com esse tipo de pagamento. O grande risco é a volatilidade. Tudo que acontece na blockchain fica registrado, mas é preciso um documento formal validando a equivalência em reais”, reforça Leandro.
Vale a pena?
Receber em criptomoedas não é apenas uma questão de moda ou de “espírito geek”. Se estruturado de forma legal, tributária e estratégica, pode ser uma alternativa interessante para premiações ou, no futuro, até parte da remuneração fixa. Mas, como dissemos, é preciso cautela.
Gostou do tema? Confira o 134º episódio do ConsultAqui e nos conte: você toparia receber em Bitcoin ou prefere continuar no tradicional depósito em reais?





