Nossa passagem pelo CompDays — Fórum de Remuneração rendeu uma segunda rodada das famosas “polêmicas da remuneração” — aquelas frases provocativas que nos fazem pensar sobre como as empresas reconhecem e recompensam as pessoas (a primeira rodada você acompanha aqui). E as três provocações de hoje prometem gerar boas reflexões:
- “Promoção não depende de talento, depende de narrativa.”
- “Cargo bonito, salário feio.”
- “ILP é a maneira mais elegante de te pagar com promessa.”
Curiosamente, todas esbarram em um dilema comum para líderes e profissionais de RH: como entregar reconhecimento e motivação sem cair em promessas vazias?
Para entender melhor esses temas, conversamos com Felipe Cruz, Gerente de Remuneração da Carreira Muller, que compartilhou sua visão sobre cada uma dessas provocações.
Narrativas e performance: o peso de “cacarejar o ovo”
Você já deve ter ouvido o ditado: “não basta botar o ovo, tem que cacarejar!”. Felipe usa essa expressão para ilustrar como, no ambiente corporativo, não basta apenas entregar resultados — é preciso saber contar a história por trás deles.
Segundo ele, justificar uma promoção ou investimento exige mais do que boas entregas: o profissional precisa mostrar o que fez, construir uma narrativa sólida e deixar claro o valor que agrega ao negócio. O problema é que nem todos têm essa habilidade – ou a dinâmica pode até ser injusta.
“Tem gente que se vende muito bem, mas não agrega tanto valor ao negócio. Por outro lado, há profissionais que entregam resultados incríveis, mas não transmitem o impacto que geram e acabam sendo prejudicados”, explica Felipe.
O ideal seria que os líderes conseguissem distinguir esses dois perfis, saber filtrar narrativas inconsistentes e valorizar talentos genuínos. Mas sabemos que, na prática, isso é mais fácil dizer do que fazer. “O nível de liderança que temos hoje nas empresas sofre muito para identificar quem realmente entrega valor. Por isso, o profissional que, além de entregar resultados, consegue construir uma narrativa clara sobre sua contribuição, tem mais chances de ser reconhecido.”
Em outras palavras: quem consegue unir resultado e narrativa vai acabar se destacando.
Para os mais tímidos, o desafio é maior, mas não impossível. Contar sua própria história faz parte da qualificação profissional. É uma competência que ajuda o colaborador a mostrar como sua atuação gera valor para o negócio.
Cargo bonito, salário feio: o descompasso entre status e reconhecimento
O segundo tema das “polêmicas” trata de uma verdade incômoda: o título nem sempre vem acompanhado do salário.
Felipe explica que o “cargo bonito” costuma ser um desejo dos próprios profissionais: um engenheiro quer ser chamado de engenheiro, um advogado quer ser chamado de advogado. Mas o problema é que, muitas vezes, o prestígio do nome nem sempre vem acompanhado da valorização financeira.
Essa desconexão, segundo ele, acontece geralmente por dois motivos:
- Quando a empresa cria cargos sem ajustar o salário à nova responsabilidade;
- Quando o colaborador busca um status que não reflete a realidade da entrega.
E a solução pode ser simples, que é começar pelo que realmente importa: o salário.
“Antes de dar o cargo, vamos tratar o salário. Coloca ele no salão de beleza, deixa ele bonito. Aí sim, depois disso, você pode entregar o cargo como um prêmio.”
ILP: promessas ou oportunidades de longo prazo?
Por fim, a terceira provocação fala sobre o Incentivo de Longo Prazo (ILP) — como as famosas stock options. É “uma maneira elegante de remunerar com promessa”.
O ILP funciona bem quando a empresa cresce e o colaborador colhe os frutos, mas também pode gerar frustração se as expectativas não forem bem alinhadas. “Se eu encarar a ação como uma remuneração garantida, ela vira uma promessa vazia. Mas, se eu enxergar como um desafio, ajudar a levar a empresa a outro patamar e, com isso, ser recompensado, então faz sentido”, comenta Felipe.
O segredo está na comunicação clara.
Quando o colaborador entende que o ILP é uma oportunidade de participar dos resultados — e não uma remuneração garantida —, o programa ganha força e engaja. Para isso, a equipe de remuneração precisa comunicar com clareza os riscos e o potencial de ganho, para que o colaborador veja o incentivo como um desafio compartilhado, e não como uma promessa vazia.
O que aprendemos com as polêmicas da remuneração
As “polêmicas” do CompDays mostram que remuneração é muito mais do que números — envolve percepção, narrativa e coerência entre discurso e prática.
Afinal, ninguém se motiva apenas por promessas. O que engaja de verdade é ver que a história contada sobre o seu valor está alinhada com o reconhecimento que você recebe.
Se você gostou do tema, assista ao 142º episódio do ConsultAqui e continue essa conversa com a gente. E, se quiser tirar dúvidas, clique aqui e fale conosco!




